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quinta-feira, 1 de março de 2018

Sabes quem eu sou? Eu não sei .



Sabes quem eu sou? Eu não sei.
Outrora, onde o nada foi
Fui o vassalo e o rei,
É dupla a dor que me dói.
Duas dores eu passei.


 Fui tudo o que pode haver
Ninguém me quis esmolar;
E entre o pensar e o ser
Senti a vida passar
Como um rio sem correr

Fernando Pessoa
Poesias inéditas
(1930-1935) 1955

          « Estrangeiro aqui e em toda a parte»

Pessoa viveu como o Marinheiro do seu drama simbolista, por conta de um futuro que ainda não existe . É a leitura dos seus poemas quem o faz  adivinhar e apetecer . Há meio século isso era mais sensível para quem o descobria, e nele se descobria do que hoje, em que se tornou o lugar comum da cultura portuguesa e um ícone incontestável da cultura universal . O que ele desejou a vida inteira foi estar nu, nu culturalmente como ninguém  antes dele o estivera, pois não havia verdade ou verdades que pudessem ou tivessem o condão de o vestir.

Na ordem aparente da vida, o seu sonho fracassou inteiramente .
 Ninguém suportou a sua nudêz.

Todos nos consertámos para lhe oferecer a pátria que não teve, não queria e não podia ter.
Pessoa clamou isso em todos os tons, do fundo do poço com vista virtual para um céu que não o podia ouvir.
 Tem hoje a superpátria, que nem mesmo nos seus sonhos mais vertiginosos não se atrevera a imaginar. . Nunca esteve mais só, que no seu trono de pura glória. E já ninguém o pode devolver à sua solidão original, tão rente à alma de onde surgiam, como do caos mesmo os poemas onde ele era o absoluto estrangeiro de si mesmo,

 LuzB
                           

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Sentenças rimadas


Quem fêz a casa na praça
A muito se aventurou ;
Uns dizem que ela que é baixa,
Outros que de alta passou.


Tudo o que nasceu morreu
Lá no pino do verão;
Tudo torna a renovar,
Só a mocidade não !


Pelo céu vai uma nuvem
Todos dizem: - Bem na vi!
Todos falam e murmuram,
Ninguém olha para si.


A cantar ganhei dinheiro,
A cantar se me acabou;
O dinheiro mal ganhado,
Água o deu, água o levou .


Bendito Senhor da Serra,
Lá no alto do Padrão;
Quem não quer que o mundo fale,
Não lhe dê ocasião .


O cravo depois de sêco,
Foi-se queixar ao jardim:
A rosa lhe respondeu:
 - Por tempo tudo tem fim.


O ladrão do milho verde,
A manha que ele sabia:
Guardava orvalho de noite
P'ra beber em todo o dia !


Se à minha porta faz lama,
À tua faz um lameiro ;
Não digas mal de ninguém ,
Sem olhares p'ra ti primeiro.


Debaixo da trovisqueira
Saiu a perdiz cantando;
Deixemos falar quem fala...
É mundo, vamos andando


Tu queres subir ao alto,
Ao alto queres subir ;
Mas quem ao mais alto sobe,
Ao mais baixo vem cair.


Uma saudade me mata,
Uma crença me sustém,
Uma esperança me diz:
Após tempo, tempo vem.




terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Franz Marc - Expressionismo


Marc nasceu a 8 de Fevereiro de 1880. Era filho de um  pintor de nome  Wilherm Marc.
Enquanto que a maioria dos expressionistas provinha de familias burguesas vendo-se obrigada a enfrentar os respectivos pais para conseguir  realizar o desejo pouco convencional de ser artista,
Marc poderia ter contado com a compreensão do pai.




No entanto, nao tinha o desejo de enveredar pelos caminhos da arte, tendo-se decidido com 17 anos a estudar Teologia. Dois anos mais tarde inscreve-se na Faculdade de Letras da Universidade de Munique, sendo no entanto obrigado a cumprir um ano de serviço militar antes de iniciar os estudos, e acabando por se mudar depois para a Academia de Belas Artes . Gabriel Hackl Wlhelm Von Diaz foram seus professores na Academia, dois pintores que seguiam a tradição do Munchner Schule (grupo de hisoriadores de arte) da escola de Munique. Marc deve-lhes a linguagem formal do início da sua carreira.


Até 1903 as suas obras possuem caracteristicas estruturais na composição, típicas da Munchner Schule, assim como os tons expressivos e matizados . Uma viagem a Paris nesse mesmo ano incita-o a enveredar por novos caminhos. É aí que descobre a arte dos impressionistas, interessando-se principalmente pelas obras de Manet.




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Marc já não regressa à Academia o que pode ser interpretado como um sinal exterior da sua renovação artistica, depois das suas impressões vividas em Paris. As suas cores, tornam-se mais claras. O artista instala-se com o seu cavalete ao ar livre para pintar . As formas são simplificadas, o efeito plano é acentuado, não decompondo, no entanto as cores à maneira impressionista. O seu modelo é Manet
. Resultado de imagem para franz marc 1903
                                          


 Uma segunda estadia curta, em  Paris em 1907 e nessa  ocasião  Marc descobre a arte de Van Gogh, que se irá repercutir no seu trabalho . A sua pincelada torna-se mais rítmica e dinâmica. As suas pinturas ganham movimento, pelo menos no que respeita a paisagens, pois  os seus outros motivos não passam por esta fase evolutiva.




Depois de uma estadia de  veraneio em Lenggries, em 1908, as representações de animais ganham cada cez mais importãncia, suplantando quase completamente as pinturas figurativas. O motivo da paisagem é mantido não passando no entanto de mero habitat dos animais.Resultado de imagem para franz marc 1903



No entanto Marc nunca retratou animais no sentido da pintura de género. Pelo contrário, na sua pintura, os seus grupos de cavalos e de veados tomam o lugar do homem. Para Marc, os animais representam caracteristicas positivas, como «pureza»,  «verdade». e «beleza» as quais ele já não conseguia encontrar nos seus ´próximos. Resultado de imagem para franz marc 1903

Numa carta que escreve  à sua mulher, Marc faz  a comparação directa entre o Homem e o Animal: « Ao fim e ao cabo até agora, o instinto tem-me mostrado o caminho certo ...; principalmente esse instinto, que me fez afastar do sentimento vital pelo Homem e me fez virar para um sentimento por aquilo que é o animal, pelo " animal puro". As pessoas sem piedade que me rodeavam (principalmente as do sexo masculino ) não tocavam os meus sentimentos verdadeiros enquanto que o puro sentimento vital dos animais despertava em mim tudo o que é de bom»
Mas o que lhe interessava não era a pura descrição naturalista da realidade, apesar de os seus estudos de anatomia em esqueletos de animais terem sido uma boa preparação.Tomara consciência de que o «sentimento básico de toda a arte»não pode ficar ligado à aparência exterior, mas sim que deve ir mais fundo e que deve representar «o ser absoluto». Mas, Marc sabia também que as suas possibilidades criativas ainda não estavam suficientemente formadas, de modo a que pudesse dar esse passo que levasse da «aparência» ao «ser» .


Em 1909 Marc muda-se de Munique para Sindelsdorf na Alta Baviera. Marc tinha a esperança de conseguir algo desse idílico rural e intacto para a sua arte. O que foi, no entanto decisivo para a continuação da sua evolução artística foi o ano seguinte, pois libertou-o da solidão a que até aí vivera trazendo-lhe importantes contactos com outros artistas, dando um impulso à sua carreira


 Em 1910 recebe a visita de August Macke que lhe apresenta Bernhard Koehler filho de um reputado coleccionador e mecenas de Berlim que pretendia conhecer o artista pessoalmente depois de ver uma das suas exposições na Galeria Brakl em Munique .
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Durante a conversa descobrem depressa que têm interesses e gostos em comum  e Marc espera ter encontrado «um circulo de pintores inteligentes»
Entre Auguste Mackle e Marc desenvolve-se uma grande amizade. Os dois amigos visitam-se e viajam juntos e organizam sessões de trabalho conjuntas.
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Pela primeira vez Marc tem a possibilidade de trabalhar, sem se preocupar com problemas financeiros.


Nessa altura  Marc já tinha resolvido o  problema da forma criativa ao esforçar-se por chegar ao "ser absoluto" , Renuncia ao individual e ao anedótico, a favor de uma simplificação da paisagem e da figura animal
                         
Quando em 1914 a guerra eclode  Marc alista-se como voluntário. Também ele glorifica a guerra, vendo nela a grande aventura comunitária que terá um efeito inovador sobre a sociedade
« O estábulo de Augeias, a velha Europa, só poderá ser limpo desta forma»  «ou será que existe uma ùnica pessoa que deseja que esta guerra, nunca tenha acontecido?» escreve a Kadinsky seu velho amigo do tempo  do «Der Blaue Reiter» .
Marc já quase não encontrava momentos para trabalhar em novas pinturas. Executa principalmente pequenos desenhos a lápis.

 A 4 de Março de 1916 é morto em combate perto de Verdun


                                                                        
¸¸.•*•❥A arte não é  mais do que a expressão do nosso sonho, quanto mais nós nos rendemos a ele, mais ele se aproxima de sua verdade interior .
 FranzMarc¸¸.•*•❥




domingo, 28 de janeiro de 2018

Recado

 vermelha:
Não precisas de escrever-me
Que me lembre.


Não precisas de lembrar-me
Que te diga.

Não precisas de dizer-me
Que te peça.


Não precisas de pedir-me
Que te ame.

Só precisas é de amar-me
Sem que eu diga

Nem precise de dizer-te, que te amo!


Lopes Morgado (Areias de Vilar, Barcelos, 23/4/1938)
Sacerdote – Frei da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos - , professor, escritor, poeta, jornalista

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Cinderela e os sapatos de cristal



A primeira versão francesa do popular conto de fadas, os sapatos  da Gata Borralheira eram  pantoufles em vair  - sapatos em pele de arminho branco .

No século XIV,  a palavra vair ficou fora de moda e o autor francês Charles Perrault (1628-1703) que reescreveu a história em 1697 e não conhecia o vocabulário, confundiu a palavra com verre, vidro.
Como a versão ocidental da história deriva do conto de Perrault. o sapatinho de cristal continuou a ser utilizado nas versões seguintes.
A história da Cinderela tem raízes em contos tradicionais  cuja origem é obscura;
 nas versões que existem em número superior a 300 o sapatinho aparece invariavelmente feito de algum material raro ou dispendioso - ouro ou prata, incrustrados com jóias ou pérolas

Conto popular conhecido em todo o mundo tem a sua versão mais antiga escrita em chinês e datada do século lX
... quem diria!!


sábado, 23 de dezembro de 2017

O Pai Natal da dispensa

O Pai Natal está de costas viradas para a janela.
Usa óculos de aros redondos, vê mal, coitado, sobretudo agora pelo Natal.

O mundo fica tão escuro aqui, os dias curtos, as noites tão longas.
Com a vista assim, cansada, quase fria como o olhar de uma ave perdida no meio do Inverno, pouco ou  quase nada se pode esperar dele.

Olha para mim e não me vê. Estou sentado diante   dele, quieto atento à  sua imobilidade ancestral
Ele é a única presença que ilumina esta sala cheia de livros.
As suas barbas imensas caídas sobre o velho casaco, dão-lhe um ar de ancião triste e desolado.

Há anos que trás às costas um saco cheio de prendas.

Habitava  a casa na outra vida que tive . Os meninos eram pequenos  corriam para os seus braços tensos com a alegria que só a inocência proporciona.

Tirei ontem o Pai Natal da despensa .
Esteve lá escondido todo o ano à espera de Dezembro.
Apanhou-me desprevenido, o tempo correu tão depressa!
Ainda há dias eu era da idade dos meus filhos quando eram pequenos.
De repente a casa não é a mesma, eu sou a minha família pelo Natal.

Os amigos espalham cartazes pelo Facebook.
O tempo e o silêncio esmagam a memória das coisas, deixam cair por terra as suas vozes.
O olhar sem vida do Pai Natal cruza a sala.

Não sei como atravessar esse lago aberto na escuridão, essa fenda entre mim, e o vazio.


Eduardo Bettencourt Pinto


segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

História antiga

Era uma vez, lá na Judeia, um rei
Feio bicho, de resto:
uma cara de burro sem cabresto
e duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava, e via
que naquela figura não havia
olhos de quem gosta de crianças

E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
o malvado,
só por ter o poder de quem é rei
por não ter coração,
sem mais nem menos
mandou matar quantos eram pequenos
nas cidades e aldeias da nação.

Mas,
por acaso ou milagre, aconteceu
que, num burrinho, pela areia fora,
fugiu
daquelas mãos de sangue um pequenino
que o vivo sol da vida acarinhou:
e bastou
esse palmo de sonho
para encher este Mundo de alegria:
para crescer, ser Deus:
e meter nos infernos o tal das tranças,
só porque ele não gostava de crianças.

Miguel Torga
1907-1995
Escritor português com mais de cinquenta obras publicadas