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quarta-feira, 12 de setembro de 2012

O passado fica nós passamos



O passado é sempre um destroço fumegante,
uma sombra que nos persegue,uma pele da nossa pele

que não aceita compromissos ou rupturas.

Irá connosco até ao fim, como as tatuagens

e as cicatrizes,como uma ferida incurável na voz.

O passado desagua no delta das nossas incertezas,

fantasma omnipresente do que deixámos por cumprir.



Lembras-te de mim, neste retrato,tapando o rosto, com medo do vento e com vergonha de ter medo?

Lembras-te de nós, tão longe de casa

a passearmos pelas ruas íngremes de uma cidade, sem nome mas de perfume intenso?

Lembras-te de ti a morrer aos poucos dentro de mim

com a serena indiferença de quem imagina

que tudo é imutável, só porque o queremos imutável?

É isso o passado: o sentimento por trás da imagem,

a recordação colada à fotografia, o aroma de uma despedida que ficou para sempre inconfessada.


Nós passamos, mas o passado fica, teimosamente,

a lembrar-nos que ainda temos muito que passar,

sorriso asfixiado contra um vidro fosco

onde os pássaros embatem e morrem, arquejantes,

vitimados pela armadilha do fulgor do sol.

José Jorge Letria









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