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sábado, 20 de agosto de 2016

Frei João Sem Cuidados




O rei ouvia sempre falar em Frei João Sem Cuidados como um homem que não se afligia com coisa nenhuma deste Mundo.


- Deixa estar, que   hei-de meter-te em trabalhos !
Mandou-o chamar à sua presença e disse-lhe:
- Vou-te dar uma adivinha; e se dentro de três dias não me souberes responder, mando-te matar. Quero que me digas
Quanto pesa a lua, quanta água tem o mar e em que é que eu penso.

Frei João Sem  Cuidados saiu do palácio bastante atrapalhado, pensando na resposta que havia de  dar àquelas perguntas.
O seu  moleiro encontrou-o no caminho e lá estranhou ver o frade tão preocupado  de cabeça baixa e macambúzio

- Olá senhor  Frei João Sem Cuidados, então que é isso, que o vejo tão triste?
- É que o rei disse-me que me mandava matar se, dentro de três dias, não lhe respondesse a  estas perguntas:- Quanto  pesa a lua ?  quanta água tem o mar ? O  que é que ele pensa.?

O moleiro pôs-se  a rir e disse-lhe que não tivesse cuidado; que lhe emprestasse o  hábito de frade, que ele  iria  disfarçado e havia de  dar boas  respostas  ao rei.

Passados três dias, o moleiro, vestido de frade, foi pedir audiência ao rei. O rei  perguntou-lhe:
- Então quanto pesa a lua?
- Saberá Vossa Majestade que não poderá  pesar mais do que um arrátel, porque  todos dizem que ela tem quatro quartos.
- É verdade. E agora: Quanta água tem o mar?
Respondeu o moleiro:
- Isso é muito dificil de saber. Mas como Vossa Majestade só quis  saber da água do mar, é preciso primeiro mandar tapar os rios, porque sem isso... nada feito!
O rei achou bem respondido; mas, zangado de ver Frei João Sem Cuidados  escapar-se das  dificuldades, tornou:
- Agora, se não souberes o que é que eu penso, mando-te matar!
O moleiro  respondeu : 
- Ora ! Vossa Majestade pensa que está a falando com Frei João Sem Cuidados e está mas é falando  com o seu moleiro.!
- Deixou cair o hábito e o rei ficou pasmado com a esperteza do ladino




Moral da história; - Nem sempre quem muito pode é quem muito sabe!!
 
                                         Teófilo Braga - Contos tradicionais portugueses
                                       (retirado do meu livro de leitura do 1º. ano do ensino  liceal  1952)






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