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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Última vontade e testamento de um cão

Antes de morrer em 1953, Eugene O'Neill era já conhecido como o Shakespeare americano.
Escreveu mais de de 30 peças de teatro, e quase todas refletem  uma mensagem de  luta,  heróica, e trágica do homem e que lhe valeram  vários  Prémio Pulitzer .
Recebeu também o Prémio  Nobel da Literatura
O "testamento" que se segue, é  uma excepção na obra de O'Neill pelo seu sentimentalismo e senso de humor.
Foi escrito para atenuar o desgosto da sua mulher Carlota, pouco antes da morte, por velhice do seu cachorro, em Dezembro de 1940.
                                                        

.¸¸.•*•❥ Eu, Silverdene Emblem O'Neill (Blemie para a família e amigos)  devido ao peso dos anos e das enfermidades,  considerando que o meu fim se aproxima deixo  na mente do meu dono, as minhas ùltimas recomendações  e testamento. Ele só se aperceberá delas depois da minha morte e desde já lhe peço que as trascreva em minha memória.


Bens materiais não tenho. Os cães são mais sábios que os homens e nao dão grande valor às coisas, não perdem o seu tempo acumulando propriedades nem  perdem as suas horas de sono preocupados em arrecadar objectos nem a desejar os que ainda não têm.

Nada tenho de valor para legar, a não ser o meu amor e a minha fé.

Estes deixo-os a todos que nesta vida me amaram:
 aos meus donos, que  sei. sentirão mais a minha falta;
A Freeman, que foi sempre tão bom para mim;
 A Cyn, Roy, Willie  e Naomi... se prosseguisse, enumerando os que me amaram, obrigaria o meu dono a escrever um livro.

Peço aos meus donos que nunca me esqueçam, mas que não chorem demais por mim. Causa-me pena pensar que a minha morte seja para eles motivo de dor. Devem lembrar-se que embora nenhum cachorro tenha tido uma vida melhor que a minha ( e devo isso ao amor e cuidado que tiveram comigo) agora estou cego, surdo e alquebrado e até o meu olfacto começa a falhar-me de tal modo   que até um coelho pode passar-me pelo focinho e eu não dar por isso, e  o meu orgulho e amor-próprio desapareceram, num mar de humilhação.
É como se a vida escarnecesse de mim, por estar a retardar as despedidas.É hora de dizer adeus antes de me tornar um fardo pesado, para mim e para os que me amam. Será uma pena deixá-los, mas não é pena morrer.
Os cães, não temem a morte como os homens. Aceitamo-la como parte da vida e não como algo de estranho e terrível .
Gostaria de partilhar  a confiança dos meus parentes dálmatas devotos maometanos  que existe um Paraíso onde se é sempre jovem e feliz, onde se passa o tempo perseguindo belas e lânguidas huris com manchas lindas; onde há  coelhos «ligeiros» e se contam como as areias do deserto: onde cada hora é hora de comer: onde nas noites mais longas há lareiras, com lenha a arder indefinidamente e um cachorro se pode enrodilhar, piscar para as chamas cochilar e sonhar recordando os velhos tempos na Terra e o amor dos seus donos.

Receio que isso esteja muito além daquilo que mesmo um cachorro como eu possa almejar.

Porém, paz, estou certo que terei para um velho coração, cabeça e corpo cansados, e sono eterno sob a terra que tanto amei.
Talvez até isto seja o melhor.

E por  último, tenho um  pedido muito importante a fazer:
 Certa ocasião ouvi a minha dona a dizer: « Quando Blemie morrer, não quero mais nenhum cachorro. Gosto tanto dele que jamais poderei gostar de outro»


Peço-lhe agora, que por amor a mim, tenha outro cachorro. O contrário seria triste homenagem à minha memória.


 O que me deixaria feliz seria o facto de eu ter pertencido à familia e ela nunca mais poder  viver sem um cachorro dentro de casa. Nunca tive um espirito mesquinho e ciumento. Sempre acreditei na bondade da maioria dos cachorros. Alguns naturalmente são melhores que os outros mas todo o mundo sabe que não há quem se compare aos dálmatas. Sugiro pois, que o meu sucessor seja também um dálmata.


Dificilmente ele chegará a ser tão nobre, bem educado, atraente e distinto como eu fui nos bons tempos. Porém estou certo que ele se esforçará, para lhes agradar e até comparando os seus defeitos, ele contribuirá para manter bem viva a minha lembrança.
Para ele, deixo a minha coleira, a minha correia, o meu casaco e impermeável, feitos por medida por Hermès de Paris.

É claro que ele não os saberá usar, com a mesma elegância,como a minha ao  circular  na Place Vêndome em Paris, ou mais tarde, na Park Avenue em Nova Iorque, e despertar  os olhares em mim, cheios de admiração; apesar de tudo repito estou convencido que ele , fará tudo, para não parecer um mero vira-latas. e até de certo modo poder comparar-se a mim, E com todos os defeitos que porventura tenha, deixo-lhe aqui os meus votos de que goze da felicidade  que sei  terá. na minha velha casa.

Uma última palavra de despedida meus queridos donos.
Sempre que visitarem o meu túmulo, murmurem nos seus íntimos, com  saudades, mas felizes com a recordação  da longa vida, que passamos juntos;


                                  « Aqui jaz alguém que nos amou e a quem nós amamos»
Por mais profundo que seja o meu sono, eu os escutarei e nem todo o poder da morte, pode impedir que o meu espirito agradecido, abane alegremente o rabo .¸¸.•*•❥




Eugene Gladstone O'Neill (Nova Iorque, 16 de Outubro de 1888Boston, 27 de Novembro de 1953) foi um dramaturgo anarquista e socialista estadunidense. Recebeu o Nobel de Literatura de 1936 e o Prêmio Pulitzer por várias vezes.


                                    




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